domingo, 25 de novembro de 2007

O dicionário

Aprendi muito na casa da Maia à conta do dicionário.

Sempre que, já mais velhinho e sabendo ler, perguntava o que queria dizer esta ou aquela palavra, a resposta em vez de ser a informação dada com a papinha toda feita era:

"Vai ver ao dicionário"

ou, em versão mais elaborada:

"Vai ver ao pai dos burros".

Esta resposta, aliás, recebia-a quer do meu avô, quer do meu pai, que deve ter aprendido pela mesma cartilha.

Confesso que, logicamente, esta resposta me era sobremaneira odiosa: ter de consultar o dicionário não é fácil para um miúdo; tivesse eu 7 ou 14 anos a sede de informação devia ser satisfeita, pelos parâmetros daquele momento, com uma água mais generosa e de efeito mais rápido. Mas, aos poucos, lá me fui habituando. Quiçá das primeiras vezes tenha desistido ou apenas tenha ido ver com ajuda ou obrigado, mas aquele hábito acabou por se entranhar e a ele devo muito do sucesso que tive na Faculdade e que hoje tenho nas pesquisas de conhecimento que tenho de fazer no âmbito profissional para conseguir desempenhar algumas tarefas que ultrapassam o meu conhecimento imediato, mas que estão ao alcance de um livro ou de meia dúzia de cliques na internet.

O avô tinha não um mas dois dicionários em casa. Um muito velhinho, formato A5 ou pouco mais, muito grosso e com letras miudinhas e um outro em dois magníficos volumes, imponente, tamanho A4, ilustrado, já enciclopédico (embora não seja uma enciclopédia!). Salvo situações de consulta urgente ou para ter uma "segunda opinião" era sempre utilizado o dicionário maior. E a páginas tantas a ida ao dicionário era aproveitada não só para consultar o que se tinha de consultar, mas também para espreitar para as outras páginas magnificamente ilustradas e muitíssimo atraentes.

Outra característica dos dicionários da casa da Maia, sobretudo o grande, era a de servir de arquivo a recortes de jornais, panfletos e outras coisas que provavelmente não tinham outro sítio melhor para serem guardadas. E dar uma vista de olhos sobre esses recortes que nos íam aparecendo à medida que se procurava a página onde estava a palavra, era também um motivo de grande interesse.

Creio que de alguma maneira o avô notou este meu fascínio por aquele dicionário, porque um belo dia fui informado que ele iria ficar para mim, quando ele faltasse. E ficou.

Está na casa dos meus pais e teve até há pouco tempo todos os recortezinhos no mesmo sítio. Sairam recentemente porque os recolhi para fazer pesquisas sobre o seu conteúdo das quais espero dar-vos notícia neste blog quando for oportuno. E ainda é usado algumas vezes (claro que a acessibilidade das ferramentas electrónicas lhe faz concorrência desleal) e ainda exerce sobre mim, com todo aquele colorido das imagens e as recordações da casa da Maia, o fascínio de outros tempos.

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