quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Orvalho

O avô lia muito, como já disse.

Mas também escrevia umas coisitas de poesia com algum interesse, para nós que somos a sua família. Se tinha interesse ou qualidade literária, objectivamente, talvez um dia venhamos a sabê-lo.

Algures lá na casa da Maia, penso que por vezes andava na parte de baixo da mesinha de cabeceira, outras vezes no escritório, perto da caixa onde ele arquivava as fichas de catálogo da sua biblioteca, andava um pequeno livrinho, feito de folhas pautadas, com aspecto de ter sido encadernado pelas próprias mãos do avô e encapada com papel tipo papel ferro. Nessa capa com uma caligrafia muito bonitinha e muito bem desenhada está escrita a palavra "Orvalho". E lá dentro estão os poemas do avô.

Não sei se cheguei a lê-los todos, mas recordo-me que havia temas que vão desde os mais íntimos e tocantes, como o que ele fez para um dos meus primos a cujo baptizado não pôde comparecer por se achar doente, até ao extraordinariamente jocoso, como aquele em que ele denuncia uma viagem fantasma que um senhor lá de Famalicão inventou ter feito, tendo-se depois descoberto que durante esse período de suposta ausência se encontrava encerrado em casa.

Esses poemas foram recentemente dactilografados pelo meu pai e ainda não perdi a esperança que ele se chegue à frente, se inscreva como autor deste blog e comece a debitar para aqui esses textos. Como aperitivo deixo-vos um que me foi dedicado, o qual sei de cor há, talvez 20 anos. Foi escrito, segundo creio saber, e faz todo o sentido que tenha sido, por ocasião da mudança dos meus pais para V. N. de Gaia, quando eu tinha por aí um ano, ano e meio; essa mudança teve a consequência - qual dano colateral - de eu deixar de frequentar a Casa da Maia como até aí, dado que era lá que eu ficava durante o dia enquanto os meus pais labutavam.

Ficamos, mais tristes, mais sós.
Foi-se embora a mariposa,
Dos cuidados dos avós,
Meu lindo botão de rosa.

A casa, está mais vazia,
Já não ouço os teus vagidos,
Meu lindo botão de rosa,
De pouco mais do que um dia.

Sem comentários: