sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Hobbies

Se eu alguma vez tivesse dito ao avô que ele tinha hobbies o mais certo era ouvir como resposta que o português tem muitas palavras para dizer tudo o que for necessário. Para ele os anglofonismos eram apenas modas: por isso o stress e os bornes das baterias eram apenas palavras que as pessoas usavam para se exibirem.

Por isso ao titular este post ainda pensei em utilizar "passatempos" ou "interesses" ou... sei lá, uma palavra portuguesa, porque acho que ele ía gostar mais. Mas, afinal de contas acabei por optar por "hobbies" porque, além de com isto mostrar que sei falar inglês, me parece que é a palavra mais adequada. Paciência avô...

Mas deixemos de lado esta discussão metafísica e vamos ao "sumo".


Uma das grandes paixões que tinha era pelo coleccionismo e em várias vertentes: pelo menos lembro-me que coleccinonava moedas, selos e calendários. Parece-me que também me lembro de uma colecção de caixas de fósforos (alguém me confirma isto???), mas já não me recordo bem.


Para além disso adorava ler. Ler de tudo um pouco, desde os jornais aos livros, o que fazia dele uma pessoa com uma enorme cultura, para além daquela que ele já trazia da sua formação escolar. Em termos de literatura era um particular apaixonado por Camilo Castelo Branco, um seu (e meu) conterrâneo, e por Eça de Queiroz.

Em jeito de parêntisis, e porque este blog é um blog sobretudo de recordações, recordo-me do avô contar várias vezes que em conversa com uma senhora, não sei onde, nem a propósito do quê, havia demonstrado tais conhecimentos que ela exclamara: "Oh Sr. Brandão, o senhor é uma autêntica enciclopédia viva". Ele contava isto como se o comentário não lhe tivesse agradado, mas hoje pergunto-me se não seria uma maneira dele mostrar o seu orgulho nesse reconhecimento.


Continuando, uma vez apercebi-me também que o meu avô sabia revelar fotografias. Não sei exactamente em que moldes o fazia porque só me recordo de, em certa altura, ter tido uma conversa fugaz sobre o assunto. Ocorreu quando se abriu um armário daqueles cheios de berlicoques. Para quem conhece a casa era um armário que estava na Sala de Visitas entre a porta do Quartinho do Senhor e a porta que dava para o Quarto do Fundo. Dizia eu que o armário foi aberto para acrescentar alguma coisa ou para mostrar alguma das peças que lá estavam e eu reparei numa estranha máquina. Logo caiu a pergunta:

- Avô, para que é aquilo?

- É para revelar fotografias.

- E o avô sabe revelar? - perguntei admirado, pois nunca o vira a fazer tal coisa.

- Sei. Sabes que há coisas que não se devem mandar revelar fora.

Percebi que não era politicamente correcto perguntar que coisas eram essas e a conversa ficou por aí.


Apesar de ser uma pessoa muito caseira, tanto quanto me recordo, o avô tinha dois hobbies extra-muros: a caça e a pesca. Julgo saber que também costumava ir ao futebol, mas isso foi em tempos em que eu, se era já nascido, já não recordo. A verdade é que, agora que falo nisto, lembro-me de poucas vezes que ele tivesse ido à pesca e nenhumas que ele tivesse ido à caça. Quanto à pesca creio que a maior parte das vezes ele iria com o meu tio José Carlos, que é ainda hoje um grande afficionado da pesca. Das caçadas apenas me lembro de histórias que se contavam ao serão, lá na casa da Maia - histórias essas que diziam respeito a "outros tempos" - e das armas que por lá andavam, porque acho que no meu tempo nunca houve uma ida à caça.


Sobre a caça conto-vos a única história que me ficou na memória: o meu avô vai para a caça com amigos; algum ou alguns dos outros com armas caríssimas; o meu avô com uma mais modesta. A páginas tantas o meu avô já tinha caçado uns quantos bichos - não sei se coelhos ou perdizes ou que bichos seriam - e um dos tais que tinha a arma XPTO nem água vira. A certa altura diz para o meu avô:
- Oh Sr. Brandão tem de me vender essa arma.
Ao que o avô respondeu prontamente:
- Eu a arma vendo-lhe, não lhe vendo é o olho.
Esta era uma das características do Zeca da Maia. Resposta mordaz sempre pronta a sair.

E para terminar uma outra história que tem a ver com o futebol embora pouco tenha a ver com futebol. Houve um dia, teria ele pelos meus cálculos, 30 anos, que se preparava para ir ao futebol. Entretanto chegam à Casa da Maia, onde ele morava com as suas tias, conforme disse no outro post, umas senhoras que vinham de Braga visitar as suas tias. Sucede que entre as pessoas que compunham a comitiva vinha uma jovem que teria talvez os seus 23 anos chamada Laura. Prossigo a narrativa usando as próprias palavras da protagonista:

- O teu avô estava para ir para o futebol, mas quando me viu, já não saiu de casa.

E assim nasceu o romance entre Laura e José, que veio a dar em casamento, dois filhos, 6 netos e, para já, 6 bisnetos - embora dos bisnetos ele não tivesse conhecido nenhum - e em toda a história que aqui pretendo recordar.

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