domingo, 23 de dezembro de 2007

Noite de Consoada

A minha noite de consoada, desde toda a vida, que eu me lembre, até 1991, foi sempre passado na Casa da Maia. E a noite de Consoada da Casa da Maia girava toda à volta da Cozinha Velha de que falei no último post.

A partir do meio da tarde era acesa a lareira e, salvo erro, o fogão de lenha [mais uma vez ver o post anterior]. Nos grandes potes de ferro que estavam à fogueira cozinhavam-se as couves; no fogão o bacalhau ou vice versa.


Por isso quando chegava a hora de comer, seguiam para a sala de jantar ou para a sala de visitas se os comensais fossem muitos e fosse necessário mais espaço, os alimentos cozinhados ao fogo.

O número de comensais, nessas consoadas, variava muito. Todos os anos estavam os meus avós (por supuesto, como dizem os espanhóis), os meus pais eu e a minha irmã. Nos anos ímpares estavam também os meus tios de Braga e os respectivos filhos, os meus primos de Braga - estes eram os anos em que eu mais me divertia, sem dúvidas. Quando era mais novito (tipo 4 a 6 anos) recordo-me de estarem presentes também em vários natais, a minha tia Maria do Carmo, irmã do meu avô, e alguns ou muitos dos seus sete filhos e seus respectivos filhos (netos dela). Mas depois, à medida que os anos passavam, creio que terão começado a fazer as consoadas nas suas respectivas casas, pois deixaram de vir, na sua maioria. A partir de um certo ano apenas a minha prima Zulmira (e família) consoou lá algumas vezes mais.

No final do jantar, o ritual levava-nos de volta à Cozinha Velha até que a hora em que o Menino Jesus estava para chegar: lá pelas 23h45, nós, os míudos, eramos levados para uma sala do andar de cima. Passados alguns minutos, à meia-noite, ouviam-se as campainhas que anunciavam que as prendas tinham chegado. Ao som delas, das campainhas, corríamos em debandada pelas escadas de madeira, fazendo-as troar na madrugada, para abrir os presentes. Após isto, as famílias trocavam também prendas entre si.

Anos mais tarde, já com a magia do Menino Jesus desfeita, este ritual era muitas vezes antecipado em uma hora, para se poder assistir à Missa do Galo, que começava às 0h00.

Para mim, até 1991, foi assim, todos os anos, a noite de Consoada. Faz todo o sentido recordá-la como parte das minhas memórias associadas aos meus avós.

A Cozinha Velha

As refeições da Casa da Maia foram confeccionadas até mais ou menos 1970/1972, numa Cozinha que ficava no andar inferior da casa.
Nessa altura uma das divisões da parte superior foi convertida numa cozinha e numa casa de banho modernas, pelo que a cozinha original passou a servir apenas como local de convívio nas frias noites de inverno, pois era lá que se acendia uma magnífica lareira onde, diga-se a bem da verdade, não era pouco frequente quase sufocarmos devido à má exaustão do fumo.

A Cozinha Velha - como ficou conhecida essa cozinha antiga, a partir do momento em que a nova foi criada - era essencialmente uma divisão de cerca de 24 metros quadrados, com o chão em terra batida, excepto numa área sensivelmente central que, salvo erro, era em pedra, em cima da qual se acendia, a fogueira. Não era como nas lareiras modernas em que a lenha fica aconchegada dentro de uma estrutura de pedra: ali a lenha ficava a arder em cima da pedra e as pessoas podiam sentar-se praticamente a toda a volta da fogueira. Normalmente apenas dum dos lados não havia pessoas.

A um dos lados da zona da fogueira existia um banco corrido, muito engraçado, pois o seu assento levantava-se e na caixa que por baixo dele se abria guardavam-se jornais, pinhas e lenha mais míuda para acender o fogo. Mesmo por trás da fogueira (quero dizer, do tal lado em que normalmente não havia pessoas) havia uma cavidade em pedra, cujo objectivo era, se bem me lembro, guardar cinzas. Do outro lado, um velho fogão de lenha e ao lado deste, a fazer esquina, existia um forno de pão que eu nunca vi funcionar. Ao lado do forno havia um depósito de água (que antigamente era cheio com cântaros de água que se traziam de algum poço) e uma enorme banca.

Em cima da pedra da lareira havia ainda dois potes de ferro onde se fervia água, água essa que era aproveitada para encher botijas de água quente nas quais nos abraçávamos para aguentar o gelo da noite. Essas botijas eram essenciais, dado que as divisões de cima, em geral, não tinham qualquer tipo de aquecimento.

Por trás da divisão principal, separada por uma parede de madeira com janelas sem vidros, havia uma sala pequena, a que chamávamos precisamente a Salinha. Nunca cheguei a saber qual a utilidade dessa sala originalmente, mas no meu tempo servia para nós, os mais novos, nos refugiarmos em brincadeiras, deixando os graúdos com as suas conversas (sensaboronas, como se pode imaginar, para nós crianças ou adolescentes daquele tempo) na área maior.

Àquela fogueira vi abrir pinhas mansas ao calor, até cuspirem os pinhões ainda com as cascas, que eram logo ali partidas para podermos comer os ditos pinhões, ainda quentinhos [enquanto escrevo parece que sinto aquele sabor peculiar do pinhão quente a desfazer-se na minha boca]. Àquela fogueira vi os adultos a derreter chumbo que era vertido em moldes próprios, nos quais eram aplicados arames em forma arredondada, para servirem de chumbadas para a pesca. Àquela fogueira vi cozer as couves de Natal anos a fio.

Foi precisamente por causa do papel particularmente importante que a Cozinha Velha tinha no Natal da Casa da Maia, do grandioso Natal da Casa da Maia melhor dizendo, que escrevi este artigo. Espero que tenha sido um bom aperitivo para o artigo em falarei exclusivamente desse tema. Talvez para a semana...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Orvalho

O avô lia muito, como já disse.

Mas também escrevia umas coisitas de poesia com algum interesse, para nós que somos a sua família. Se tinha interesse ou qualidade literária, objectivamente, talvez um dia venhamos a sabê-lo.

Algures lá na casa da Maia, penso que por vezes andava na parte de baixo da mesinha de cabeceira, outras vezes no escritório, perto da caixa onde ele arquivava as fichas de catálogo da sua biblioteca, andava um pequeno livrinho, feito de folhas pautadas, com aspecto de ter sido encadernado pelas próprias mãos do avô e encapada com papel tipo papel ferro. Nessa capa com uma caligrafia muito bonitinha e muito bem desenhada está escrita a palavra "Orvalho". E lá dentro estão os poemas do avô.

Não sei se cheguei a lê-los todos, mas recordo-me que havia temas que vão desde os mais íntimos e tocantes, como o que ele fez para um dos meus primos a cujo baptizado não pôde comparecer por se achar doente, até ao extraordinariamente jocoso, como aquele em que ele denuncia uma viagem fantasma que um senhor lá de Famalicão inventou ter feito, tendo-se depois descoberto que durante esse período de suposta ausência se encontrava encerrado em casa.

Esses poemas foram recentemente dactilografados pelo meu pai e ainda não perdi a esperança que ele se chegue à frente, se inscreva como autor deste blog e comece a debitar para aqui esses textos. Como aperitivo deixo-vos um que me foi dedicado, o qual sei de cor há, talvez 20 anos. Foi escrito, segundo creio saber, e faz todo o sentido que tenha sido, por ocasião da mudança dos meus pais para V. N. de Gaia, quando eu tinha por aí um ano, ano e meio; essa mudança teve a consequência - qual dano colateral - de eu deixar de frequentar a Casa da Maia como até aí, dado que era lá que eu ficava durante o dia enquanto os meus pais labutavam.

Ficamos, mais tristes, mais sós.
Foi-se embora a mariposa,
Dos cuidados dos avós,
Meu lindo botão de rosa.

A casa, está mais vazia,
Já não ouço os teus vagidos,
Meu lindo botão de rosa,
De pouco mais do que um dia.