domingo, 26 de outubro de 2008
Prolongamento do Blog
Sucede que por diversas razões que não interessa aqui explicar, não consegui adicionar os meus quatro primos de Braga, como participantes e construtores deste blog. E como considero que sem a possibilidade deles participarem este blog não faz qualquer sentido, irei prolongar por mais um ano o prazo do blog.
Tal permitir-me-á, também, completar algumas mensagens que tenho iniciadas e outras que tenho pensadas e enriquecer este blog como sempre pretendi para que esteja à altura do homem que por ele é homenageado: o Zeca da Maia.
domingo, 23 de março de 2008
Páscoa na Casa da Maia
Normalmente de manhã, uma ou outra vez talvez de tarde, o compasso era recebido sempre. Ao portão eram lançadas pétalas de camélia da japoneira que existia no jardim, as quais informavam, conforme é a tradição católica, que naquela casa era para entrar.
Normalmente era uma manhã sempre esquisita porque nunca se sabia muito bem a que horas chegava o compasso. Tanto podia chegar às nove da manhã como ao meio-dia. Ao longe ouviam-se durante toda a manhã os sinos mas mesmo assim nunca se sabia se era agora, porque muitas vezes eram compassos que estavam a fazer outras rotas que não passavam lá. Mas isto penso que acontece um pouco por todo o país e faz parte, de certa forma, da magia da Páscoa.
Como o meu avô tem muitos sobrinhos em Famalicão, à medida que os compassos íam passando nas casas deles eles íam ligando para lá para saber se já tinha passado na Casa da Maia. Em caso negativo arrancavam para lá e por isso na maiorira dos anos juntava-se ali muito gente.
Quando finalmente os sinos deixavam de ser longínquos e passavam a ser os que anunciavam o nosso compasso o nervosismo ía crescendo áté que finalmente o compasso entrava pelo grande portão do jardim, com as túnicas a esvoaçar. Subiam a escada de pedra, entravam na enorme varanda, o sino sempre a tocar e a criançada numa enorme excitação. Todos nos encaminhávamos para uma sala designada a "Sala de Visitas", que tinha uma enorme porta autónoma, em madeira maciça, mas com um aspecto muito velho, para onde se entrava directamente da grande varanda.
Esta sala era assim chamada porque só era usada muito raramente, em situações especiais. Estava mobilada a um dos lados, na parede de Leste, por um armário com alguns bibelots (de que já falei num post anterior) que ficava entre duas portas que davam para outras divisões; em frente, na parede Oeste, existia uma magnífica estante com livros junto de uma enorme porta também em madeira maciça que dava para a parte interior da casa; na parede Norte, entre as duas janelas que davam para a estrada Famalicão - Guimarães existia uma cadeira de 3 lugares com o assento em rede, que ficava por baixo de um armário embutido na parede de pedra que tinha, se não me engano, 80 cm de espessura; entre a estante de pedra e essa cadeira, em frente a uma das janelas, um magnífico sofá, muito confortável, onde eu adorava afundar-me nas tardes de verão a ler um livro, enquanto esperava que o sol cobrisse a eira para poder ir jogar à bola; na parede sul existia outro armário embutido na parede e, creio recordar, uma mesa de jogo; ao centro desta enorme sala uma magnífica mesa, cheia de trabalhados, debaixo da qual estava uma bengala muito bonita com o punho em prata, uma escarradeira e um banjolim que lá pelos 18 anos o meu avô me ofereceu, quando eu me apaixonei pela música. Esta sala tinha uma tal dimensão que, mesmo com toda esta mobília em volta da mesa, que teria talvez 1,5m por 1m, se podia circular num espaço de cerca de 1 metro a toda a sua volta, sem problemas. A completar este cenário o tecto era em formato de masseira muito lindo e dele pendia um candeeiro antigo. Enfim, eu como adoro este estilo antigo adorava todas aquelas peças ou, se calhar, porque adorava todas aquelas mobílias é que hoje adoro o estilo antigo...
Bom, mas esta descrição da sala de visitas é para que possam imaginar o compasso a irromper por aquela sala impononente cheia de gente a toda a volta. Podiam chegar a ser 20 a 30 pessoas, se calhar mais. O meu avô recebia o compasso à porta dessa sala e após serem proferidas as palavras litúrgicas, tomava a cruz nas suas mãos e dava ele próprio a beijar a cruz a todos. No fim, entregava a cruz ao filho mais velho, se ele lá estivesse, ou ao mais novo, o qual lhe dava a cruz a beijar a ele.
Após este ritual a cruz era pousada na tal cadeira de rede de 3 lugares e passava-se à sala de jantar. Não a vou descrever para não sobrecarregar ainda mais este post, mas por mais resistência que o compasso fizesse (e como eles estavam sempre com pressa havia sempre alguma resistência a ficar), o meu avô não lhes permitia sairem sem cumprir a tradição da Casa da Maia: enquanto nas outras casas lhes davam vinho e doces, ali havia café. E quando eles ouviam dizer que havia café, fosse mais no início da manhã, quando um café sabe bem para acordar, ou mais para o fim quando a trupe já estava toda rebentada de caminhar, aquilo era música para os ouvidos deles. Esta tradição era tão forte que muitas vezes os próprios membros do compasso já estavam à espera de chegar àquela casa onde, desde o tempo das tias do meu avô se servia na Páscoa um café que era: "negro como o carvão, quente como o inferno e doce como o amor". Alguns conheciam mesmo esta frase que ano após ano era repetida.
Depois lá seguia o compasso para completar a sua rota enquanto os familiares e amigos acabavam de beber também o seu cafezinho e de degustar as amêndoas e o pão de ló, para depois continuarem o seu dia de Páscoa.
quinta-feira, 13 de março de 2008
O mítico pudim do avô!
Mas como todas as regras que se prezam, esta tem uma excepção: o meu avô ía à cozinha para fazer pudim. Não me perguntem porquê nem porque não. Qual a origem desse ritual que conduziu a que pudim na Casa da Maia era feito pelo Zeca da Maia? Não sei.
Simplesmente sei que era um pudim delicioso, amarelinho e cremoso, com caramelo por cima. Recordo-me, pouco, quase nada, de ver o avô a fazê-lo, mas tenho uma remota recordação de ver laranjas ou sumo de laranja a ser preparado para entrar na receita. Enfim, se não for segredo de família, pedirei à minha mãe que me dê a receita para vir para aqui. Mas enfim, como bem se pode depreender, o pudim do avô era, como quase tudo o que o envolvia, mítico.
Mas o misticismo do pudim do avô tem alguns detalhes que vale a pena revelar aqui. O primeiro é que eu não conhecia qualquer outro tipo de pudim. Quando comecei a ouvir falar de pudins de ovos, pudins Abade de Priscos, pudins disto ou daquilo, para mim isso era chinês. Eu só conhecia o pudim do avô e ainda hoje não sei se era um pudim de ovos ou de outra coisa qualquer. Apenas sei que quando tenho acesso a algum daquele género, o identifico imediatamente como sendo "aquele". E qualquer outro tipo de pudim não me sabe a nada, por melhor que seja.
Na minha inocência infantil, um dia na casa de uns amigos dos meus pais fiz uma cena com piada daquelas que de vez em quando quando se está a recordar coisas de família vêm à baila. A dona da casa ofereceu-me... o que mais poderia ser...???... pudim. Eu virei-me para a minha mãe e perguntei:
- Oh mãe o pudim foi feito pelo avô?
- Não, filho - obviamente naquele contexto não poderia ser.
- Então não quero, só como pudim do meu avô, rematei eu.
Mas a parte mais engraçada do mito é que, ao que parece, o pudim do meu avô praticamente não era feito por ele. Segundo me contaram quando já era mais velhinho o avô apenas intervinha numa das fases da confecção e não, como eu julgava e como a sua designação faria supor, em toda ela.
Mas, ainda assim, aquele pudim continua a ser o pudim do avô.
domingo, 23 de dezembro de 2007
Noite de Consoada
A partir do meio da tarde era acesa a lareira e, salvo erro, o fogão de lenha [mais uma vez ver o post anterior]. Nos grandes potes de ferro que estavam à fogueira cozinhavam-se as couves; no fogão o bacalhau ou vice versa.
Por isso quando chegava a hora de comer, seguiam para a sala de jantar ou para a sala de visitas se os comensais fossem muitos e fosse necessário mais espaço, os alimentos cozinhados ao fogo.
O número de comensais, nessas consoadas, variava muito. Todos os anos estavam os meus avós (por supuesto, como dizem os espanhóis), os meus pais eu e a minha irmã. Nos anos ímpares estavam também os meus tios de Braga e os respectivos filhos, os meus primos de Braga - estes eram os anos em que eu mais me divertia, sem dúvidas. Quando era mais novito (tipo 4 a 6 anos) recordo-me de estarem presentes também em vários natais, a minha tia Maria do Carmo, irmã do meu avô, e alguns ou muitos dos seus sete filhos e seus respectivos filhos (netos dela). Mas depois, à medida que os anos passavam, creio que terão começado a fazer as consoadas nas suas respectivas casas, pois deixaram de vir, na sua maioria. A partir de um certo ano apenas a minha prima Zulmira (e família) consoou lá algumas vezes mais.
No final do jantar, o ritual levava-nos de volta à Cozinha Velha até que a hora em que o Menino Jesus estava para chegar: lá pelas 23h45, nós, os míudos, eramos levados para uma sala do andar de cima. Passados alguns minutos, à meia-noite, ouviam-se as campainhas que anunciavam que as prendas tinham chegado. Ao som delas, das campainhas, corríamos em debandada pelas escadas de madeira, fazendo-as troar na madrugada, para abrir os presentes. Após isto, as famílias trocavam também prendas entre si.
Anos mais tarde, já com a magia do Menino Jesus desfeita, este ritual era muitas vezes antecipado em uma hora, para se poder assistir à Missa do Galo, que começava às 0h00.
Para mim, até 1991, foi assim, todos os anos, a noite de Consoada. Faz todo o sentido recordá-la como parte das minhas memórias associadas aos meus avós.
A Cozinha Velha
Nessa altura uma das divisões da parte superior foi convertida numa cozinha e numa casa de banho modernas, pelo que a cozinha original passou a servir apenas como local de convívio nas frias noites de inverno, pois era lá que se acendia uma magnífica lareira onde, diga-se a bem da verdade, não era pouco frequente quase sufocarmos devido à má exaustão do fumo.
A Cozinha Velha - como ficou conhecida essa cozinha antiga, a partir do momento em que a nova foi criada - era essencialmente uma divisão de cerca de 24 metros quadrados, com o chão em terra batida, excepto numa área sensivelmente central que, salvo erro, era em pedra, em cima da qual se acendia, a fogueira. Não era como nas lareiras modernas em que a lenha fica aconchegada dentro de uma estrutura de pedra: ali a lenha ficava a arder em cima da pedra e as pessoas podiam sentar-se praticamente a toda a volta da fogueira. Normalmente apenas dum dos lados não havia pessoas.
A um dos lados da zona da fogueira existia um banco corrido, muito engraçado, pois o seu assento levantava-se e na caixa que por baixo dele se abria guardavam-se jornais, pinhas e lenha mais míuda para acender o fogo. Mesmo por trás da fogueira (quero dizer, do tal lado em que normalmente não havia pessoas) havia uma cavidade em pedra, cujo objectivo era, se bem me lembro, guardar cinzas. Do outro lado, um velho fogão de lenha e ao lado deste, a fazer esquina, existia um forno de pão que eu nunca vi funcionar. Ao lado do forno havia um depósito de água (que antigamente era cheio com cântaros de água que se traziam de algum poço) e uma enorme banca.
Em cima da pedra da lareira havia ainda dois potes de ferro onde se fervia água, água essa que era aproveitada para encher botijas de água quente nas quais nos abraçávamos para aguentar o gelo da noite. Essas botijas eram essenciais, dado que as divisões de cima, em geral, não tinham qualquer tipo de aquecimento.
Por trás da divisão principal, separada por uma parede de madeira com janelas sem vidros, havia uma sala pequena, a que chamávamos precisamente a Salinha. Nunca cheguei a saber qual a utilidade dessa sala originalmente, mas no meu tempo servia para nós, os mais novos, nos refugiarmos em brincadeiras, deixando os graúdos com as suas conversas (sensaboronas, como se pode imaginar, para nós crianças ou adolescentes daquele tempo) na área maior.
Àquela fogueira vi abrir pinhas mansas ao calor, até cuspirem os pinhões ainda com as cascas, que eram logo ali partidas para podermos comer os ditos pinhões, ainda quentinhos [enquanto escrevo parece que sinto aquele sabor peculiar do pinhão quente a desfazer-se na minha boca]. Àquela fogueira vi os adultos a derreter chumbo que era vertido em moldes próprios, nos quais eram aplicados arames em forma arredondada, para servirem de chumbadas para a pesca. Àquela fogueira vi cozer as couves de Natal anos a fio.
Foi precisamente por causa do papel particularmente importante que a Cozinha Velha tinha no Natal da Casa da Maia, do grandioso Natal da Casa da Maia melhor dizendo, que escrevi este artigo. Espero que tenha sido um bom aperitivo para o artigo em falarei exclusivamente desse tema. Talvez para a semana...
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Orvalho
Mas também escrevia umas coisitas de poesia com algum interesse, para nós que somos a sua família. Se tinha interesse ou qualidade literária, objectivamente, talvez um dia venhamos a sabê-lo.
Algures lá na casa da Maia, penso que por vezes andava na parte de baixo da mesinha de cabeceira, outras vezes no escritório, perto da caixa onde ele arquivava as fichas de catálogo da sua biblioteca, andava um pequeno livrinho, feito de folhas pautadas, com aspecto de ter sido encadernado pelas próprias mãos do avô e encapada com papel tipo papel ferro. Nessa capa com uma caligrafia muito bonitinha e muito bem desenhada está escrita a palavra "Orvalho". E lá dentro estão os poemas do avô.
Não sei se cheguei a lê-los todos, mas recordo-me que havia temas que vão desde os mais íntimos e tocantes, como o que ele fez para um dos meus primos a cujo baptizado não pôde comparecer por se achar doente, até ao extraordinariamente jocoso, como aquele em que ele denuncia uma viagem fantasma que um senhor lá de Famalicão inventou ter feito, tendo-se depois descoberto que durante esse período de suposta ausência se encontrava encerrado em casa.
Esses poemas foram recentemente dactilografados pelo meu pai e ainda não perdi a esperança que ele se chegue à frente, se inscreva como autor deste blog e comece a debitar para aqui esses textos. Como aperitivo deixo-vos um que me foi dedicado, o qual sei de cor há, talvez 20 anos. Foi escrito, segundo creio saber, e faz todo o sentido que tenha sido, por ocasião da mudança dos meus pais para V. N. de Gaia, quando eu tinha por aí um ano, ano e meio; essa mudança teve a consequência - qual dano colateral - de eu deixar de frequentar a Casa da Maia como até aí, dado que era lá que eu ficava durante o dia enquanto os meus pais labutavam.
Ficamos, mais tristes, mais sós.
Foi-se embora a mariposa,
Dos cuidados dos avós,
Meu lindo botão de rosa.
A casa, está mais vazia,
Já não ouço os teus vagidos,
Meu lindo botão de rosa,
De pouco mais do que um dia.
domingo, 25 de novembro de 2007
O dicionário
Sempre que, já mais velhinho e sabendo ler, perguntava o que queria dizer esta ou aquela palavra, a resposta em vez de ser a informação dada com a papinha toda feita era:
"Vai ver ao dicionário"
ou, em versão mais elaborada:
"Vai ver ao pai dos burros".
Esta resposta, aliás, recebia-a quer do meu avô, quer do meu pai, que deve ter aprendido pela mesma cartilha.
Confesso que, logicamente, esta resposta me era sobremaneira odiosa: ter de consultar o dicionário não é fácil para um miúdo; tivesse eu 7 ou 14 anos a sede de informação devia ser satisfeita, pelos parâmetros daquele momento, com uma água mais generosa e de efeito mais rápido. Mas, aos poucos, lá me fui habituando. Quiçá das primeiras vezes tenha desistido ou apenas tenha ido ver com ajuda ou obrigado, mas aquele hábito acabou por se entranhar e a ele devo muito do sucesso que tive na Faculdade e que hoje tenho nas pesquisas de conhecimento que tenho de fazer no âmbito profissional para conseguir desempenhar algumas tarefas que ultrapassam o meu conhecimento imediato, mas que estão ao alcance de um livro ou de meia dúzia de cliques na internet.
O avô tinha não um mas dois dicionários em casa. Um muito velhinho, formato A5 ou pouco mais, muito grosso e com letras miudinhas e um outro em dois magníficos volumes, imponente, tamanho A4, ilustrado, já enciclopédico (embora não seja uma enciclopédia!). Salvo situações de consulta urgente ou para ter uma "segunda opinião" era sempre utilizado o dicionário maior. E a páginas tantas a ida ao dicionário era aproveitada não só para consultar o que se tinha de consultar, mas também para espreitar para as outras páginas magnificamente ilustradas e muitíssimo atraentes.
Outra característica dos dicionários da casa da Maia, sobretudo o grande, era a de servir de arquivo a recortes de jornais, panfletos e outras coisas que provavelmente não tinham outro sítio melhor para serem guardadas. E dar uma vista de olhos sobre esses recortes que nos íam aparecendo à medida que se procurava a página onde estava a palavra, era também um motivo de grande interesse.
Creio que de alguma maneira o avô notou este meu fascínio por aquele dicionário, porque um belo dia fui informado que ele iria ficar para mim, quando ele faltasse. E ficou.
Está na casa dos meus pais e teve até há pouco tempo todos os recortezinhos no mesmo sítio. Sairam recentemente porque os recolhi para fazer pesquisas sobre o seu conteúdo das quais espero dar-vos notícia neste blog quando for oportuno. E ainda é usado algumas vezes (claro que a acessibilidade das ferramentas electrónicas lhe faz concorrência desleal) e ainda exerce sobre mim, com todo aquele colorido das imagens e as recordações da casa da Maia, o fascínio de outros tempos.