domingo, 23 de março de 2008

Páscoa na Casa da Maia

Tal como o Natal a Páscoa na Casa da Maia era um acontecimento.


Normalmente de manhã, uma ou outra vez talvez de tarde, o compasso era recebido sempre. Ao portão eram lançadas pétalas de camélia da japoneira que existia no jardim, as quais informavam, conforme é a tradição católica, que naquela casa era para entrar.

Normalmente era uma manhã sempre esquisita porque nunca se sabia muito bem a que horas chegava o compasso. Tanto podia chegar às nove da manhã como ao meio-dia. Ao longe ouviam-se durante toda a manhã os sinos mas mesmo assim nunca se sabia se era agora, porque muitas vezes eram compassos que estavam a fazer outras rotas que não passavam lá. Mas isto penso que acontece um pouco por todo o país e faz parte, de certa forma, da magia da Páscoa.

Como o meu avô tem muitos sobrinhos em Famalicão, à medida que os compassos íam passando nas casas deles eles íam ligando para lá para saber se já tinha passado na Casa da Maia. Em caso negativo arrancavam para lá e por isso na maiorira dos anos juntava-se ali muito gente.

Quando finalmente os sinos deixavam de ser longínquos e passavam a ser os que anunciavam o nosso compasso o nervosismo ía crescendo áté que finalmente o compasso entrava pelo grande portão do jardim, com as túnicas a esvoaçar. Subiam a escada de pedra, entravam na enorme varanda, o sino sempre a tocar e a criançada numa enorme excitação. Todos nos encaminhávamos para uma sala designada a "Sala de Visitas", que tinha uma enorme porta autónoma, em madeira maciça, mas com um aspecto muito velho, para onde se entrava directamente da grande varanda.

Esta sala era assim chamada porque só era usada muito raramente, em situações especiais. Estava mobilada a um dos lados, na parede de Leste, por um armário com alguns bibelots (de que já falei num post anterior) que ficava entre duas portas que davam para outras divisões; em frente, na parede Oeste, existia uma magnífica estante com livros junto de uma enorme porta também em madeira maciça que dava para a parte interior da casa; na parede Norte, entre as duas janelas que davam para a estrada Famalicão - Guimarães existia uma cadeira de 3 lugares com o assento em rede, que ficava por baixo de um armário embutido na parede de pedra que tinha, se não me engano, 80 cm de espessura; entre a estante de pedra e essa cadeira, em frente a uma das janelas, um magnífico sofá, muito confortável, onde eu adorava afundar-me nas tardes de verão a ler um livro, enquanto esperava que o sol cobrisse a eira para poder ir jogar à bola; na parede sul existia outro armário embutido na parede e, creio recordar, uma mesa de jogo; ao centro desta enorme sala uma magnífica mesa, cheia de trabalhados, debaixo da qual estava uma bengala muito bonita com o punho em prata, uma escarradeira e um banjolim que lá pelos 18 anos o meu avô me ofereceu, quando eu me apaixonei pela música. Esta sala tinha uma tal dimensão que, mesmo com toda esta mobília em volta da mesa, que teria talvez 1,5m por 1m, se podia circular num espaço de cerca de 1 metro a toda a sua volta, sem problemas. A completar este cenário o tecto era em formato de masseira muito lindo e dele pendia um candeeiro antigo. Enfim, eu como adoro este estilo antigo adorava todas aquelas peças ou, se calhar, porque adorava todas aquelas mobílias é que hoje adoro o estilo antigo...

Bom, mas esta descrição da sala de visitas é para que possam imaginar o compasso a irromper por aquela sala impononente cheia de gente a toda a volta. Podiam chegar a ser 20 a 30 pessoas, se calhar mais. O meu avô recebia o compasso à porta dessa sala e após serem proferidas as palavras litúrgicas, tomava a cruz nas suas mãos e dava ele próprio a beijar a cruz a todos. No fim, entregava a cruz ao filho mais velho, se ele lá estivesse, ou ao mais novo, o qual lhe dava a cruz a beijar a ele.

Após este ritual a cruz era pousada na tal cadeira de rede de 3 lugares e passava-se à sala de jantar. Não a vou descrever para não sobrecarregar ainda mais este post, mas por mais resistência que o compasso fizesse (e como eles estavam sempre com pressa havia sempre alguma resistência a ficar), o meu avô não lhes permitia sairem sem cumprir a tradição da Casa da Maia: enquanto nas outras casas lhes davam vinho e doces, ali havia café. E quando eles ouviam dizer que havia café, fosse mais no início da manhã, quando um café sabe bem para acordar, ou mais para o fim quando a trupe já estava toda rebentada de caminhar, aquilo era música para os ouvidos deles. Esta tradição era tão forte que muitas vezes os próprios membros do compasso já estavam à espera de chegar àquela casa onde, desde o tempo das tias do meu avô se servia na Páscoa um café que era: "negro como o carvão, quente como o inferno e doce como o amor". Alguns conheciam mesmo esta frase que ano após ano era repetida.

Depois lá seguia o compasso para completar a sua rota enquanto os familiares e amigos acabavam de beber também o seu cafezinho e de degustar as amêndoas e o pão de ló, para depois continuarem o seu dia de Páscoa.

quinta-feira, 13 de março de 2008

O mítico pudim do avô!

O avô era de uma geração em que os homens não entravam na cozinha. E ele não fugia a essa regra.


Mas como todas as regras que se prezam, esta tem uma excepção: o meu avô ía à cozinha para fazer pudim. Não me perguntem porquê nem porque não. Qual a origem desse ritual que conduziu a que pudim na Casa da Maia era feito pelo Zeca da Maia? Não sei.

Simplesmente sei que era um pudim delicioso, amarelinho e cremoso, com caramelo por cima. Recordo-me, pouco, quase nada, de ver o avô a fazê-lo, mas tenho uma remota recordação de ver laranjas ou sumo de laranja a ser preparado para entrar na receita. Enfim, se não for segredo de família, pedirei à minha mãe que me dê a receita para vir para aqui. Mas enfim, como bem se pode depreender, o pudim do avô era, como quase tudo o que o envolvia, mítico.


Mas o misticismo do pudim do avô tem alguns detalhes que vale a pena revelar aqui. O primeiro é que eu não conhecia qualquer outro tipo de pudim. Quando comecei a ouvir falar de pudins de ovos, pudins Abade de Priscos, pudins disto ou daquilo, para mim isso era chinês. Eu só conhecia o pudim do avô e ainda hoje não sei se era um pudim de ovos ou de outra coisa qualquer. Apenas sei que quando tenho acesso a algum daquele género, o identifico imediatamente como sendo "aquele". E qualquer outro tipo de pudim não me sabe a nada, por melhor que seja.

Na minha inocência infantil, um dia na casa de uns amigos dos meus pais fiz uma cena com piada daquelas que de vez em quando quando se está a recordar coisas de família vêm à baila. A dona da casa ofereceu-me... o que mais poderia ser...???... pudim. Eu virei-me para a minha mãe e perguntei:

- Oh mãe o pudim foi feito pelo avô?

- Não, filho - obviamente naquele contexto não poderia ser.

- Então não quero, só como pudim do meu avô, rematei eu.

Mas a parte mais engraçada do mito é que, ao que parece, o pudim do meu avô praticamente não era feito por ele. Segundo me contaram quando já era mais velhinho o avô apenas intervinha numa das fases da confecção e não, como eu julgava e como a sua designação faria supor, em toda ela.

Mas, ainda assim, aquele pudim continua a ser o pudim do avô.