domingo, 4 de novembro de 2007

Contributos para uma biografia I

Uma das rubricas deste blog será a reconstrução do percurso biográfico do avô. Vou agora começá-la com as datas mais marcantes para nas próximas edições procurar chegar a maior detalhe.

Começando pelo princípio, nasceu a 29 de Outubro de 1908 em V. N. de Famalicão. Suponho que tenha nascido na Quinta da Cachadinha, porque sei que era lá que os meus bisavós viviam e naqueles tempos não havia cá mariquices de ir nascer ao hospital. Hospital... qual hospital???!!!???

Em jeito de enquadramento histórico, notemos que 9 meses antes o Rei D. Carlos tinha sido assassinado. A monarquia estava moribunda e morreria quase 2 anos depois. Não sou um grande especialista neste período da História, antes pelo contrário, mas nesses primeiros anos da República foi a loucura total a nível político com uma sucessão incrível de governos. Os tempos, até 1928 quando Salazar tomou o poder, foram de grande instabilidade e isso deve ter-se reflectido na vida das pessoas.

Se acrescermos a isto que em 1914 começou a I Guerra Mundial e que entretanto o casal da Cachadinha ficou sobrecarregado com mais 4 filhos, os meus tios avós Mário, Maria do Carmo, Agostinho e António, não é de estranhar que em algum momento da sua vida o jovem José se tenha mudado para a Quinta da Maia, para morar com as irmãs de sua mãe, as tias Emília, Sofia e Bernardina. Esta prática dos tios cuidarem dos sobrinhos, quando um dos irmãos tinha muitos filhos, se bem me percebi, era mais ou menos comum por aqueles tempos, pelo que não me admiraria que tenha sido este o caso.

Ainda assim, em termos de estudos o avô foi, de certo modo, um priviligiado pois estudou até à 4ª classe, uma enormidade naquele tempo. E claro, não era uma 4ª classe como a de agora, era uma 4ª classe em que se ensinava e se aprendia: eu lembro-me de chegar orgulhoso à beira dos meus avós a dizer que tinha aprendido de cor os principais rios portugueses, cantando, "Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, Vouga, Mondego, Tejo, Sado, Mira e Guadiana" e deles me perguntarem: "Então e os afluentes?", coisa que eu não sabia, nem de perto. Ainda hoje não os sei, aliás.

Depois, talvez com 9 ou 10 anos, penso que teve, como todos por aquela altura, de começar a trabalhar.

Acabou por comprar a Quinta da Maia às tias. Havemos de apurar em que altura da sua vida isso aconteceu. Neste momento nem sequer sei se foi antes ou depois de, com 31 anos, aos 22 de Dezembro de 1939, casar com a minha querida avó, Maria Laura.

E, agora reparo: por acaso, 1939 foi o ano em que começara mais uma Guerra Mundial. Coisa óptima para um casal em início de vida (certo?), que entretanto via os seus rebentos a surgirem também: primeiro o meu tio José Carlos, 1940 e o meu pai, António Luís, em 1944.

Passados mais ou menos 20 anos os dois rapazes embarcam para a Guerra do Ultramar (ou Colonial ou da Libertação, não quero que a expressão seja tomada no seu lado ideológico): o mais velho para Moçambique e, mais ano, menos ano após o regresso deste, o segundo para Angola. Deus quis que também este filho, que é o meu pai, regressasse. Outras famílias não tiveram tanta sorte. É também importante referir que em cada um dos dias em que cada um dos filhos esteve em África o meu avô manteve dois diários com breves anotações, banalidades, coisas do dia a dia, com o objectivo de que cada um deles, no regresso, pudesse preencher o hiato do tempo passado longe de casa e longe da família.

Entre 1967 e 1974 nascem os seus 6 netos, 4 filhos do meu tio José Carlos e 2 do meu pai.

Não falei muito do percurso profissional do avô, pois a versatilidade e originalidade desse percurso parece-me que merece um conjunto de artigos à parte. Além do mais como não sei enquadrar esse percurso cronologicamente, tentar incluir esses dados neste post seria uma estupidez. Em todo o caso parece-me relevante referir que em 1979, tinha eu 7 anos e por isso ainda me lembro, reformou-se da Caixa Geral de Depósitos.

Em 3 de Fevereiro de 1991, após um terrível mês, não resistiu a uma pleurisia.

Em traços largos parece-me que estes são os pontos mais marcantes dos 83 anos de vida do avô José, pelo menos dos que são do meu conhecimento. Nos próximos artigos desta série e com ajuda dos comentários de todos, iremos poder acrescentar mais detalhes a cada um destes períodos.

Sem comentários: