domingo, 23 de dezembro de 2007

A Cozinha Velha

As refeições da Casa da Maia foram confeccionadas até mais ou menos 1970/1972, numa Cozinha que ficava no andar inferior da casa.
Nessa altura uma das divisões da parte superior foi convertida numa cozinha e numa casa de banho modernas, pelo que a cozinha original passou a servir apenas como local de convívio nas frias noites de inverno, pois era lá que se acendia uma magnífica lareira onde, diga-se a bem da verdade, não era pouco frequente quase sufocarmos devido à má exaustão do fumo.

A Cozinha Velha - como ficou conhecida essa cozinha antiga, a partir do momento em que a nova foi criada - era essencialmente uma divisão de cerca de 24 metros quadrados, com o chão em terra batida, excepto numa área sensivelmente central que, salvo erro, era em pedra, em cima da qual se acendia, a fogueira. Não era como nas lareiras modernas em que a lenha fica aconchegada dentro de uma estrutura de pedra: ali a lenha ficava a arder em cima da pedra e as pessoas podiam sentar-se praticamente a toda a volta da fogueira. Normalmente apenas dum dos lados não havia pessoas.

A um dos lados da zona da fogueira existia um banco corrido, muito engraçado, pois o seu assento levantava-se e na caixa que por baixo dele se abria guardavam-se jornais, pinhas e lenha mais míuda para acender o fogo. Mesmo por trás da fogueira (quero dizer, do tal lado em que normalmente não havia pessoas) havia uma cavidade em pedra, cujo objectivo era, se bem me lembro, guardar cinzas. Do outro lado, um velho fogão de lenha e ao lado deste, a fazer esquina, existia um forno de pão que eu nunca vi funcionar. Ao lado do forno havia um depósito de água (que antigamente era cheio com cântaros de água que se traziam de algum poço) e uma enorme banca.

Em cima da pedra da lareira havia ainda dois potes de ferro onde se fervia água, água essa que era aproveitada para encher botijas de água quente nas quais nos abraçávamos para aguentar o gelo da noite. Essas botijas eram essenciais, dado que as divisões de cima, em geral, não tinham qualquer tipo de aquecimento.

Por trás da divisão principal, separada por uma parede de madeira com janelas sem vidros, havia uma sala pequena, a que chamávamos precisamente a Salinha. Nunca cheguei a saber qual a utilidade dessa sala originalmente, mas no meu tempo servia para nós, os mais novos, nos refugiarmos em brincadeiras, deixando os graúdos com as suas conversas (sensaboronas, como se pode imaginar, para nós crianças ou adolescentes daquele tempo) na área maior.

Àquela fogueira vi abrir pinhas mansas ao calor, até cuspirem os pinhões ainda com as cascas, que eram logo ali partidas para podermos comer os ditos pinhões, ainda quentinhos [enquanto escrevo parece que sinto aquele sabor peculiar do pinhão quente a desfazer-se na minha boca]. Àquela fogueira vi os adultos a derreter chumbo que era vertido em moldes próprios, nos quais eram aplicados arames em forma arredondada, para servirem de chumbadas para a pesca. Àquela fogueira vi cozer as couves de Natal anos a fio.

Foi precisamente por causa do papel particularmente importante que a Cozinha Velha tinha no Natal da Casa da Maia, do grandioso Natal da Casa da Maia melhor dizendo, que escrevi este artigo. Espero que tenha sido um bom aperitivo para o artigo em falarei exclusivamente desse tema. Talvez para a semana...

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